sexta-feira, 14 de março de 2008

Capítulo 1°

O céu se torna escuro.

Há trinta e cinco anos atrás.

No coração escuro e intocado da floresta amazônica despencava dos céus uma gigantesca tempestade acompanhada de relâmpagos e trovões que rasgavam a noite e iluminavam as trevas. A ventania era tão violenta que arrancava do solo as arvores de raízes mais frágeis. E no coração desta tempestade uma pequena aldeia indígena tentava resistir a essa tormenta que os afligiam. Devido a sua concepção de mundo e existência, estes índios sabiam que havia algo de muito estranho e ruim por de trás dessa tempestade. Enquanto as crianças desesperadas choravam com medo, Homens e mulheres se agarravam uns aos outros e oravam ao grande espírito pedindo pela aldeia e por suas vidas. Em meio a tudo isso, o pajé da aldeia. Urunhan ou serpente da terra como era conhecido estava trancado em sua oca fazia uma semana rompeu seu cárcere e correu no meio da tempestade para o pátio da aldeia e lá começou dançar em circulo e a entoar vários cânticos na tentativa de aplacar aquela ira celeste. Serpente da terra era o mais velho da aldeia. Mas apesar de já ter mais de 65 anos possuía um corpo forte e seu vigor físico era de um homem de quarenta anos. E devido a sua função de médico/feiticeiro muitos na aldeia o temiam, mas acima de tudo todos o respeitavam e acreditavam em suas palavras.
Em resposta aquele distinto ritual um raio rompeu as nuvens e atingiu com toda força o pilar principal da aldeia que explodiu lançando os estilhaços de madeiras em varias direções. O velho pajé assistiu tudo aquilo horrorizado, pois sabia aquele era um sinal de mau agouro. Buscando uma resposta para esse sinal o xamã clamou ao seu totem e aos espíritos protetores da floresta que lhe enviassem uma resposta para todo aquele caos. Imediatamente uma gigantesca serpente sucuri surgiu no meio da mata e saiu deslizando com seu corpo pelo pátio encharcado pela chuva até entrar dentro da oca do velho pajé. Urunhan imediatamente reconheceu seu Totêm e a seguiu até a sua oca. Lá dentro, em meio a pequena fogueira que abrandava o frio causado pela chuva e aos inúmeros vaso e potes contendo as mais variadas ervas, poções e objetos rituais se encontrava não somente o espírito da serpente como também o espírito do macaco e da onça pintada. Juntos os três aguardavam a entrada de Urunhan. E assim que ele passou pela entrada e fechou a porta o macaco por ser o espírito mais velho falou:
-Filho da cobra nos escute com muita atenção!
Urunhan ao perceber a divina presença em seu santuário se pós de joelhos e falou:
-Grandes espíritos que aqui reinam, eu que de tão pequeno nada sei do mundo, que mal e esse que se abate sobre meu povo?
-Um mal a muito aprisionado se libertou de sua prisão. E bem rápido vai estar em seu meio macaco sem pelo. Respondeu o espírito da onça caçadora.
Filho da cobra, o espírito da pantera que estava aprisionando durante longos ciclos pelos seus crimes se libertou hoje causando uma enorme tempestade no plano espiritual e físico e logo ira renascer em seu meio, pois assim prévio o grande espírito. Falou o espírito do Macaco.
- Como Mukura a pantera está agora ligada a essa terra, sua ira acabou atingindo vocês. E com o seu despertar, muita dor e sofrimento se abateram sobre você e seu povo. Pois seu sangue e pêlos ainda estão cobertos de ódio e ganância. Falou a serpente.
-E o que devo fazer então ô grandes espíritos?
O espírito da onça pintada nesse momento lançou um forte grunhido e falou:
-Mukura a pantera, ira renascer junto de uma criança do seu povo. Mas nos que zelamos por está terra decidimos que é cedo para ela estar nesse plano. Ela ainda está muito suja para estar aqui.
-Meu filho essa criança não pode chegar a nascer. E cabe a você não deixar que isso aconteça. Falou com a voz lenta o espírito da cobra.
-Eu compreendo meus bons espíritos, mas como saberei quem é essa que ira trazer tamanha desgraça para meu povo?
- logo saberá quem ela, pois entre as fêmeas de seu povo existe uma de tenra idade e rara beleza que a pouco se tornou mulher. Ela em especial trás desde seu nascimento uma marca em seu braço na forma de uma pata de onça. Respondeu o Macaco.
-Inhaci! Mas... Mas ela ainda é só uma criança! Falou com a voz rouca o velho pajé.
-O destino da fêmea já foi traçado. Para o bem de todos ela deve morrer. Disse o espírito da onça.
-Por hora isso é tudo o que você precisa saber filho da cobra. Quando a tormenta passar, você deve se reunir com o seu povo para lhes passar o que aqui lhes falamos. Pois já devemos partir. Disse o espírito do macaco.
E com um piscar de olhos de Urunhan os três sagrados espíritos protetores da floresta desapareceram deixando o pobre pajé afogado em preocupações.
A tempestade se arrastou pelo restante da noite. Mas na aurora da manhã a forte chuva se transformara em uma garoa fina acompanhada de um fraco nevoeiro.Urunhan que havia passado toda a noite a meditando sobre o que os espíritos lhe disseram, Aproveitou o inicio da manhã para fazer suas preces e pintar seus braços e pernas com tinta de urucum e o rosto com fuligem de carvão. Pois quando as pessoas da aldeia o vissem com aquelas pinturas logo saberiam que uma guerra estava próxima. Pronto fisicamente e espiritualmente ele apanhou seu cajado ornado com os mais variados tipos de penas e saiu de sua oca indo mais uma vez em direção ao pátio da aldeia. Lá chegando com a ponta do cajado desenhou na terra ainda molhada pela chuva um pequeno circulo e bateu com força o cajado no meio do circulo fazendo a terra revolver e formar um pequeno elevado de cinco palmos de altura. Após subir e observar toda a aldeia ele emitiu um forte grito chamando a todos para fora de suas ocas.
Em questão de minutos toda a aldeia estava em sua volta. O cacique, os homens, as mulheres, acompanhadas das crianças, os mais velhos. Todos esperavam atentos e ansiosos pelas palavras do pajé. Com um olhar firme e determinado O pajé começou a narrar o que os sagrados espíritos haviam lhes dito: Com uma voz forte como a de um trovão e por meio de mímicas, Serpente da Terra foi lentamente narrando ponto a ponto a visita dos três sagrados espíritos em sua oca. Explicou-lhes sobre a natureza da tempestade, a profecia feita e finalmente sobre aquela que está destinada a trazer o mal a aldeia.
Imediatamente o mais forte e mais belo dos guerreiros da aldeia de nome Arumãn, e filho do Cacique Acaipôran. Veio até perto de onde estava Serpente da Terra e falou:
-Pajé peço desculpas por lhe interromper, mas por favor nos diga quem é essa que vai trazer tamanho mal para o nosso meio?
Nesse momento o pajé abaixou seus olhos se calou durante alguns segundos e então, falou seriamente:
-Aquela que está destinada a trazer esse mal na barriga carrega em seu braço a marca da pata de uma onça.
Mal o pajé terminou a frase, todas as pessoas da aldeia mudaram seu foco de atenção em direção a Inhanci. Uma jovem garota de corpo pequeno com ar meio infantil, grudada ao braço da avó. Porem está garota possuía uma beleza que chegava a ser quase sobrenatural, ela era tão bela que feria a vaidade das outras mulheres na aldeia. Seu corpo e seios rijos e pele lisa, queimada pelo sol, mau saída da infância levava os homens a deseja-la fortemente. Mas bem antes dela se tornar mulher sua família já havia lhe prometido a Arumãn, o filho do cacique. Como os dois tinham quase a mesma idade, ele com quinze anos e ela com treze anos, acabaram crescendo juntos. Se tornando muito apegados um ao outro.
Instigadas pelo calor da revelação e pela inveja que carregavam, varias mulheres saltaram na direção de Inhanci a atacando com socos, chutes, mordidas e arranhões enquanto outro grupo a impedia de se defender segurando seus braços, puxando seus cabelos e pernas. Sem poder se defender a jovem sofria a forte tortura enquanto os homens e os mais velhos assistiam sem nada fazer para interferir. Até mesmo sua mãe e sua família que assistiam toda aquela barbárie nada fizeram para impedir o ato. Se não fosse a intervenção feroz e ousada de Arumã que saltou entre as mulheres distribuído varias bordoadas até conseguir tomar sua amada nos braços, Inhanci já estaria naquele momento morta. Com o corpo machucado e com vários cortes feitos pelas unhas e dentes das outras mulheres a inocente índia se agarrou com força no corpo de Arumã e deixou as lagrima rolarem pelo seu rosto. Nesse momento Serpente da terra deu grito fazendo toda a multidão ficar em silêncio e desceu do pequeno elevado passando por entre todos até chegar ao casal. Lentamente ele se abaixou e com uma de suas mãos enxugou as lagrimas que saltavam dos olhos de Inhaci, enquanto a outra ia delicadamente afagando seu sedosos cabelos.
-Minha neta, neste dia sombrio um mal recai sobre você. Mas não se abata, tente enxergar que você estará poupando esse mundo e nosso povo da dor do sofrimento.
Mas avozinho eu nem buchuda estou, como eu posso estar destinada a trazer esse mal?
-Minha pequena Seu destino já está selado. Os sagrados espíritos não se enganam jamais. A única forma de impedir este mal... É com o seu fim.
Neste momento Inhaci grudou com mais força ao corpo do seu protetor e gritou explodido em lágrimas.
-Pajé. Talvez tenha algum outro caminho. Falou Arumã.
Mas Serpente da Terra apenas se levantou ignorando as palavras do jovem guerreiro e se voltando para a multidão com um olhar frio e penetrante falou:
-Amanhã assim que a lua estiver no coração da noite teremos um “Baiakuru”.
Estas palavras foram ouvidas com terrível espanto, pois o “baiakuru” é em geral uma punição dada apenas para os piores crimes de uma aldeia. Assassinato, adultério, ou estupro. O ritual era executado da seguinte forma: O criminoso após ser encarcerado durante um dia em uma minúscula oca sem o menor ponto de luz era no fim do dia, alimentado, banhado e ornado com pinturas, penas e os mais variados adornos e colares. Terminada esta primeira etapa o condenado era levado até a entrada da mata por dois homens e solto. Em outro ponto todos os guerreiros da aldeia esperam o sinal dado pelo cacique para então caça-lo até sua morte.
Ninguém ali esperava que o pajé decretasse tal sentença, ainda mais para alguém tão jovem.
Arumã tentou protestar contra a decisão do Pajé, mas sua voz foi abafada pelos gritos de Inhaci. E pelas vozes das mulheres que começaram a entoar juntas um cântico de morte. Imediatamente o cacique Akaiporã retirou o filho dos braços de Inhaci com violência e o fez entrar relutante dentro de sua oca. Tomando a jovem pelos Braços Urunhan a levou sobe o olhar de ódio dos familiares e moradores da aldeia para dentro da oca onde ficava os sentenciados ao “Baiakuru”.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Préludio

A queda

Em algum ponto perdido no espaço e no tempo, em uma terra triste e muito antiga caia uma forte tempestade. Mas não uma tempestade comum, mas sim uma tormenta de ódio e cobiça carregada de fúria que fazia até o mais forte e bravo dos guerreiros recuar de medo.
Essa terra por ser uma fonte natural de energia mística foi durante muito tempo castigada por inúmeras batalhas entre aqueles que queriam usar essa energia para fins benéficos e aqueles que queriam tela para seus própios fins. Apenas quando um grupo de feiticeiros conseguiu derrotar os chamados usurpadores e que está terra pode enfim gozar de paz e tranqüilidade. E para que está paz fosse garantida, uma gigantesca torre esculpida em marfim fora construída com o objetivo de proteger e manter em equilíbrio daquela terra. Durante incontáveis ciclos grupos de feiticeiros se revezavam como sentinelas naquela torre para impedir que aqueles que seguem o caminho escuro não tomassem aquela terra e a depredassem novamente.
Em meio ao som dos trovões e da ventania era possível se escutar o grito de dor de alguém que caia em uma batalha.
Mas algo que nem os próprios videntes conseguiram enxergar estava acontecendo na torre. Quando todos estavam desarmados, um ataque rápido e voraz fora acometido. Bestas selvagens com aparência de tigres de cor vermelha e cobertos de escamas saltavam das sombras atacando todos que estavam na torre. Em todas as salas, quartos e câmaras da antiga torre surgiam feras que digladiavam ferozmente com qualquer um que estivesse ali dentro. E por mais que os feiticeiros lutassem e derrotassem as tais bestas, mais delas apareciam atacando com mais força os feiticeiros que restavam. Em pouco tempo de batalha, restara apenas um feiticeiro vivo. E por alguma razão as bestas não o atacavam. Em meio aos vários grupos de feiticeiros que estavam habitando a torre, este em especial se destacava de seus companheiros, primeiro por ter vindo das terras distantes de além mar e possuir a pele escura, queimada de sol. E em segundo pela sua habilidade e conhecimento sobre as criaturas espirituais e os outros mundos. Sem mencionar sua busca incessante por poder. Mas desde que a batalha havia começado ele se manteve extático sem dar um único passo e à medida que via seus amigos tombarem, as lágrimas saltavam em seu rosto mostrando que havia algo de estranho por trás de seu comportamento. Mas quando as feras derrubaram o ultimo mago e já se preparavam para sair do salão principal, o feiticeiro mais que depressa liberou uma onda de energia que varreu toda a torre desintegrando todas as bestas que estavam ali dentro. Sem mais o que fazer naquela situação ele se jogou de joelhos no chão e começou a fazer orações em sua língua natal enquanto a chuva forte caia lá fora e o sangue dos corpos avançava pelo chão molhando suas vestes brancas.
Antes que fosse morto por uma das feras, um feiticeiro telepata conseguiu enviar um grito de socorro que foi ouvido por uma embarcação que se encontrava ancorada alguns anos luz dali. Em pouco tempo um grupo de soldados feiticeiros fora enviado para torre para averiguar o tal pedido de socorro. Quando o grupo chegou aos imensos portões de puro ébano, sentirão a energia carregada de dor que circulava naquele momento ao redor da torre. Ao passarem os portões e adentrarem pelo salão principal, ficarão chocados com a cena que viram: o salão inteiro estava coberto de corpos que se amontoavam representando um verdadeiro festim de sangue. O destacamento se assustou mais ao perceber que entre aqueles corpos havia um homem de pele queimada de sol ajoelhado com sua face voltada para o chão e a túnica encharcada de sangue, falando em voz baixa em uma língua que ninguém ali conhecia. E chegando mais próximo perceberam que ao lado dele estava seu Daemon, uma enorme pantera, olhando friamente para cada um deles.
Um dos soldados foi caminhando por entre os corpos e tentou ajudar esse sobrevivente, mas quando suas mãos tocaram sua pele ele imediatamente enxergou tudo o que ocorreu naquela torre, podendo ver inclusive os fatos que levaram a aquele ataque.. A visão fora tão forte para o jovem feiticeiro que ele caiu entre os corpos em choque. Ao verem o companheiro no chão mais três soldados foram socorre-lo e acabaram tocando-o e também absorveram a visão do ocorrido na torre. Em pouco tempo todos ali já tinham conhecimento total do fato:
Esse feiticeiro de nome Marity, que havia sobrevivido estava de tal forma obcecado pela busca de conhecimento e poder, que pouco a pouco aqueles que trilham o caminho escuro chegaram até ele e fizeram uma oferta de poder que o deixou tomado pelo desejo. Seu poder seria aumentado e ele estaria no mesmo patamar de um mestre. A tarefa era muito simples, bastava apenas ele abaixar as defesas da torre por uma questão de segundos e pegar uma relíquia que eles estavam procurando. Com o conhecimento e experiência que ele já possuía isso poderia ser feito facilmente, e a demais em poucos segundo ninguém iria perceber. Isso era o que ele pensava, em quanto decidia sobre a fatal proposta.
Depois de quase um mês terrestre decidindo sobre a questão ele tomou a sua decisão, aceitando a proposta. Aproveitando-se de uma saída da torre para meditar sozinho nas montanhas ao norte, foi ao encontro do seu contato. Em uma escondida caverna ao pé das montanhas uma linda e sensual mulher de olhos vermelhos e cabelos negros o esperava sentada delicadamente sobre uma rocha. Seu nome era: Quella, a mesma que lhe havia feito a proposta de poder. Ao notar sua chegada, imediatamente saltou de seu trono rochoso e veio lentamente ao seu encontro, estendendo os braços até entrelaçar o corpo jovem mago, o deixando com o rosto totalmente colado no seu. Temendo que alguém pudesse ler seus pensamentos ou perceber seu encontro, com uma pessoa de tamanha corrupção, camuflou sua áurea com um feitiço e procurou, mesmo extasiado com aquela beleza ser o mais breve possível em sua conversa com ela.
-Senhora, eu...
-Não fale nada meu precioso. Eu posso ler seus pensamentos e já sei tua decisão. Não precisa me temer.
-Agora que tomaste sua decisão, temos que corroborar um plano para que eu possa conseguir o meu premio e você o seu.
Ao longo de algumas horas, eles chegaram a um acordo sobre o plano: Em exatamente uma semana terrestre seria celebrada na torre a importante festa ao segundo Sol, uma grande festividade que envolvia todos sem exceção, desde o Grão mestre até o mais jovem acólito deveria executar algum trabalho para que este festival saísse perfeito. Assim enquanto todos estivessem ocupados com algum preparativo, ele iria furtivamente ao salão onde se encontrava a relíquia, abaixaria as defesas da torre, tomaria a relíquia e entregaria a Quella que aproveitaria a abertura nas defesas para se encontrar com ele no alto da torre, em seguida ele levantaria novamente as defesas. E com a movimentação da celebração, ninguém iria notar nada.
Com o plano de acordo entre os dois, Quella se despediu lhe dando um longo beijo e desapareceu nas sombras, o deixando sem reação caído no chão frio e úmido da caverna.
Mais tarde, já de volta a torre, mais precisamente em seu aposento, ele se ajoelhou no chão e com uma adaga esculpida em osso, cortou sua pele em vários pontos deixando o sangue cair entre um circulo que ele fez com uma resina negra e fechou os olhos tentando buscar no fundo de sua alma a presença daquele que poderia sanar todas as suas duvidas. Uruk a pantera caçadora, seu Daemon. Após um longo período afastado de qualquer lugar ou pensamento em meios as brumas gélidas do infinito ele avistou os olhos em chamas da selvagem pantera que caminhava ao seu encontro. E com um piscar de olhos percebeu que ela já estava a sua frente.
-Gruuunh. Farejo a duvida sob tua pela e coração filhote!
-Ô grande pantera você pode ler meu coração e sabe o quanto estou sofrendo em meu intímo! Não sei ainda que caminho trilhar. Metade de meu espírito pede riquezas maiores, enquanto a outra metade pede que eu tenha paciência.
-Refreia teu coração, pois a duvida leva ao medo e o medo leva ao fracasso! A mim não foi competido ainda saber sobre os mistérios da roda do tempo, o que eu sei apenas é que se você esperar que a caça venha até você, Outra ira toma-la de você. Então não vacile quanto aos teus desejos.
-Lembre-se que nós somos uno. E que se eu o escolhi é porque você é digno de ser um caçador.
Antes que pudesse agradecer pelas palavras O jovem mago percebeu que seu Totem já não estava mais naquele plano e que ele mesmo já estava de volta o seu quarto sentado dentro do circulo que havia feito no chão.
Passado-se três luas começou-se na torre os preparativos para a grande festa do segundo sol, Mal o primeiro sol havia nascido já havia pessoas executando algum trabalho. Vários palcos começaram a ser criados para as apresentações de estudos ou mesmo algum espetáculo de magia. Nas varias cozinhas da torre a movimentação era grande. Inúmeros chefes competiam para criar o melhor prato da comemoração. Grupos de danças e teatro ensaiavam para fazer desse festival o melhor que já houve. Valendo-se desta euforia Marity foi pouco a pouco se esquivando dos trabalhos dando como justificativa para isso que estava ocupado ensaiando uma apresentação que faria na noite do festival. No dia da grande festa ele passou todo o dia trancado em seu quarto. E para que ninguém importunasse o andamento de seu plano, começou a preparar um ritual para camuflar seu corpo e bloquear seus pensamento para que nem mesmo um habilidoso feiticeiro telepata notasse sua presença. Meticulosamente ele misturou cada um dos ingredientes em uma bacia feita em barro, criando por final um espesso caldo prateado do qual derramou em todo seu corpo e vestes, dando uma peculiar aparência prateada durante alguns minutos. Mas ao se olhar em um espelho percebeu que sua imagem estava gradualmente ficando invisível. O ritual havia dado certo. Cuidadosamente Marity recolheu alguns objetos colocou em uma bolsa e a prendeu por debaixo de sua túnica para que também ficasse invisível. Por fim fez uma prece ao grande espírito, saiu de seu quarto. E passando pelas pessoas que transitavam pelo o longo corredor onde estavam os dormitórios foi caminhando sem ser notado por ninguém até chegar próximo a uma estreita porta feita em bronze no final do corredor sul. Era ali dentro que estavam as maiores relíquias e talismãs antigos existentes naquele plano físico. E devido a essa importância, um guardião espiritual na forma de uma esfinge guardava aquela entrada. Valendo-se de seu conhecimento, Marity sabia que seria preciso primeiro derrotar a guardiã com alguma charada para enfraquecida a prende-la e então entrar na sala. Para isso ele mergulhou fundo em sua mente até lembrar de um enigma que aprendeu em seu tempo de aprendiz quando saiu de sua terra para viver e estudar magia em mayaris. Usando seu feitiço de invisibilidade, Marity chegou bem próximo da esfinge que vigiava a porta sentada e gritou:
-Esfinge eu sou o espírito do vento e venho lhe trazer um desafio!
-Onde você está apareça até mim! Respondeu a esfinge.
-Eu sou o vento que a onde quer tudo está, nada pode me prender ou me aprisionar. Venho até você para lhe fazer um desafio!
-Então lance seu desafio, Mas antes quero lhe dizer que eu domino todo e qualquer enigma já feito, pois eu sou a senhora dos enigmas e charadas. E se eu acertar seu poder será meu. Assim como se eu não souber me darei a você.
-Tudo bem então eis aqui meu desafio: O que é? Quem fez não fez para si, quem comprou não usou. E quem usou não queria?
-Uhnn...
-Deixe me pensar.. O que? Não, não, não pode. Não é possível, eu não posso ser derrotada. Nãoooo.
-Me diga, por favor, me diga a resposta, eu preciso saber! Eu aceito minha derrota mais diga, por favor, diga?
Sabendo que a criatura espiritual estava enfraquecida, Marity retirou da pequena bolsa um pequeno galho de carvalho envelhecido e proferindo um feitiço de aprisionamento em sua língua natal o lançou na direção da esfinge fazendo com que sua energia e forma fossem totalmente sugadas para o interir daquele galho. A resposta para o enigma ele guardaria somente para si. Calmamente ele guardou o pequeno galho em sua bolsa e observando atentamente se ninguém passava por ali naquele momento empurrou com as duas mãos a pesada porta que se abriu liberando sua passagem..
Dentro da enorme câmara, Marity se sentiu como um verdadeiro rei, a sala estava abarrotada de enormes tesouros, gigantescos baús repletos de barras e moedas de ouro, jóias e gemas preciosas se amontoavam nos cantos espalhando seus conteúdos pelo chão. As paredes estavam artisticamente decoradas com varias pinturas e tapeçarias. Passando por um pequeno corredor ele chegou a uma sala onde estava guardado vários talismãs e relíquias. Lembrando-se da descrição feita por Quella, ele chegou a um enorme pedestal feito em ônix onde estava preso um globo coberto com um pequeno tecido branco. E quando estava preste a tirar o globo do pedestal ele sentiu um pesar em seu peito e a duvida novamente se abateu em seu espírito. Mas de qualquer forma já era muito tarde para voltar, por isso ele sacudiu a cabeça e retirou o globo do pedestal. Imediatamente ele sentiu todo o seu corpo formigar e teve a sensação de estar mais forte, mais poderoso. Agora com a relíquia em suas mãos, Marity envolveu o globo em sua túnica e saiu as pressas da câmara subindo rapidamente as gigantescas escadas em direção ao alto da torre.
. Na ultima sala do ultimo andar, Marity estava privado de todo o barulho que ocorria durante as apresentações do festival. Assim ele começou o delicado ritual para a baixar as defesas místicas da torre. Apos observar todo o local ele riscou um enorme circulo com uma pasta de cor negra, colocou quatro pedaços de ossos no meio do circulo, espalhou um punhado de cinzas e com sua adaga fez pequenos cortes em seus dois braços, deixando seu sangue verter pelo circulo. Após isso ele tirou toda sua roupa, colocou em um canto junto ao globo e começou a dançar nu no interior do circulo até que suas bordas explodiram em chamas e liberassem uma violenta energia vermelha que subiu pelos céus, agitando as nuvens e as fechando o que liberou uma violenta tempestade sobre aquela terra. O ritual havia saído perfeitamente. E assim que os trovões irromperam os céus e os fortes pingos começaram a cair, o globo místico se pariu liberando de seu interior um liquido negro que foi se espalhado pelo chão e descendo pelas frestas no chão de pedra. Marity ainda tentou aparar aquele liquido com as mãos mais já era tarde, pois seu conteúdo já estava perdido.Com raiva pelo acontecido Marity praguejou e começou a gritar no meio da tempestade pelo nome de Quella para que ela aparecesse até ele. Durante um bom tempo ele gritou, mas não obteve nenhuma resposta. Com medo que algo pudesse ter dado errado, ele se vestiu novamente, respirou fundo e tentou desfazer o ritual para reerguer novamente a barreira. Três vezes ele tentou e não conseguiu, algo ou alguma coisa estava bloqueando seu feitiço! Rapidamente ele recolheu seus objetos desfez o circulo e desceu a longos passos as escadas da torre. Próximo aos dormitórios Marity notou que os degraus de pedras estavam cheios de manchas de sangue. E parando para observar melhor a mancha no chão escutou um macabro grunhido e vários gritos de dor. Repentinamente dois enormes tigres cobertos de escamas vermelhas e de olhos em chamas saltaram das sombras na parede e vinherão em sua direção. Antes que ele pudesse pensar em algum feitiço as feras os cheiraram e partiram rapidamente em direção aos quartos atacando e matando quem estivessem lá dentro. Sem entender porque não foi atacado Marity abriu seus olhos e viu que o enorme corredor dos dormitórios masculinos estava agora infestado por centenas de feras que atacavam e devoravam os jovens feiticeiros que ali antes dormiam. Por todos os andares que passava a cena era a mesma. Como todos dentro da torre estavam comprometidos com a cerimônia ninguém percebeu que o escudo havia caído. E quando os mais velhos notaram a queda do escudo já era tarde demais, em questão de segundos a torre já estava tomada pelas bestas selvagens que saltavam das sombras. Quella havia lhe traído o tempo todo. Ela não estava interessada na relíquia em si, mas sim em toda a torre. A maldita traidora, não só havia levado todos os tesouros da torre como também havia conseguido derrotar todos os feiticeiros ali dentro. E num ultimo impulso de raiva e dor pela perda de seus amigos e por ter sido enganado Marity levantou suas mãos ao alto, reuniu todas as suas forças e liberou uma onda de energia espiritual que destruiu todas as bestas ali dentro da torre. Esgotado devido a sua ultima ação, seus feitiços anteriores se quebraram o que lhe deixou ali totalmente indefeso e exposto.
Com o final das imagens os soldados ficaram parados ainda conturbados tentando entender o que havia acontecido. Mas o primeiro soldado que havia tocado-o deu um salto, retirando sua espada da bainha partindo com toda sua força para cima do corpo curvado do mago traidor. Se não fosse a intervenção do capitão da aramada que paralisou o soldado em pelo ar com feitiço, o corpo do mago estaria partido ao meio naquela hora. Sabendo que a decisão sobre a vida dele não cabia a ninguém ali, o capitão resolveu que o melhor naquele momento seria aprisiona-lo e leva-lo a julgamento em um tribunal de feiticeiros. Com ajuda de dois soldados, foram conjurados um par de algemas antimagia e uma rede de proteção impedindo-o de ser atingido por algum ataque místico. Sem mostrar a menor reação o feiticeiro foi foi guiado pelo capitão e um grupo de soldados à uma sela dentro da embarcação da aramada, enquanto o restante da armada realizava uma varredura e limpeza do local e verificava se o escudo havia voltado ao normal.
Após alguns dias terrestres de viagem pelo éter do espaço a embarcação, um enorme navio de guerra em que estava, atracou em Mayaris. A maior e mais antiga cidadela de feiticeiros. Uma cidade conhecida pela sua famosa escola de magia e o supremo conselho de feiticeiros. Da embarcação, o feiticeiro fora escoltado a noite direto a uma cela no subterrâneo do templo da justiça mística onde aguardou sete luas até que fosse preparado seu julgamento. Durante esse tempo encarcerado e privado de seu poder o feiticeiro tinha ao seu lado apenas sua bela e temível pantera, que lhe torturava a mente e deixava todos que passavam perturbados com sua presença.
No dia do julgamento o feiticeiro foi retirado de sua cela no inicio do crepúsculo e levado acorrentado pelas mãos e pelos pés por dois soldados até a sala Justicare onde as Três o aguardavam. Como já era esperado, a sala estava repleta de vários feiticeiros e curiosos que estavam ansiosos para assistir ao julgamento do grande traidor. Apôs dois centuriões o levarem até o centro da sala e se retirarem. As três figuras femininas que estavam sentadas em três tronos ao fundo da sala se levantaram e caminharam em direção ao réu. Todos notaram que as três vestiam um longo manto de cor negra e possuíam a face uma descoberta, uma parcialmente coberta e uma totalmente coberta com um tecido de cor púrpura. E próximo à pessoa dele falaram:
-Somos uma entidade onipresente criada por Aquele acima de todos e com a missão de julgar todo e qualquer ser capaz de mudar a realidade de qualquer universo e, do mesmo modo, preservar o balanço cósmico do poder.
-Vemos todas as realidades do universo sob a vigilância de três faces: Equidade, Necessidade e Vingança.
-E sob o peso destas três forças inexoráveis para qualquer julgamento justo condenamos a sua pessoa a morte e o aprisionamento de seu totem por quinhentos ciclos humanos.
O feiticeiro ao ouvir sua sentença nada pronunciou, mas aqueles de maior percepção podiam ouvir o som gutural de uma fera enraivecida e acuada.
Passadas três luas o prisioneiro fora levado de sua cela por dois soldados a uma pequena sala de paredes cobertas do mais puro ouro onde seu algoz um forte homem coberto dos pés a cabeça com um extenso manto negro já o esperava. Na sala não havia nenhum móvel ou objeto a não ser um enorme circulo prateado e uma abertura no teto mostrando um esplendido alvorecer. Como já conhecia bem os rituais de execução ele mesmo se dirigiu ao interior do circulo ajoelhou-se e olhou para o algoz indicando que já estava pronto. Imediatamente um representante do seu signo místico que estava ali para verificar o ritual de execução consentiu fazendo um gesto com a mão para o inicio do trabalho. Ao ver o gesto, o algoz elevou suas mãos para o sol que estava nascendo e proferindo uma palavra que pouquíssimos ali sabiam fez descer direto do sol um gigantesco raio que obliterou o mago o apagando-o daquela existência. Em seguida criou uma esfera mística que aprisionou seu totem. Por meio de outro feitiço abriu um portal no espaço e lançou a esfera no mais profundo do éter para que assim não pudesse escapar de sua prisão.
Mas para aqueles que estudam a grande roda das eras, esse não seria o fim, mas apenas o começo de algo muito maior.

Introdução

Em "O peregrino da Tempestade", além da sua própria alma toda pessoa possui um espírito que vive do lado de fora de seu corpo na forma de um daemon, totem ou deva. Um espírito animal que os acompanha por toda a vida. Devido ao mundo em que vivemos que rejeita tudo o que não é “real” nos acabamos não percebendo sua presença conosco. E ele por fim adormece profundamente podendo não despertar outra vez.
Mas em locais “sagrados” ou muito afastado do meio urbano ou ainda quando passamos por alguma experiência nova, terrível ou traumática, algo que deixe nossas vidas de cabeça para baixo, somos forçados a ver que não estamos sozinhos. Então Despertamos! Uma vez desperto e tomando para si as forças e os conhecimentos de seu totem o escolhido pode se unir com ele e então moldar a realidade da forma que desejar.