sexta-feira, 14 de março de 2008

Capítulo 1°

O céu se torna escuro.

Há trinta e cinco anos atrás.

No coração escuro e intocado da floresta amazônica despencava dos céus uma gigantesca tempestade acompanhada de relâmpagos e trovões que rasgavam a noite e iluminavam as trevas. A ventania era tão violenta que arrancava do solo as arvores de raízes mais frágeis. E no coração desta tempestade uma pequena aldeia indígena tentava resistir a essa tormenta que os afligiam. Devido a sua concepção de mundo e existência, estes índios sabiam que havia algo de muito estranho e ruim por de trás dessa tempestade. Enquanto as crianças desesperadas choravam com medo, Homens e mulheres se agarravam uns aos outros e oravam ao grande espírito pedindo pela aldeia e por suas vidas. Em meio a tudo isso, o pajé da aldeia. Urunhan ou serpente da terra como era conhecido estava trancado em sua oca fazia uma semana rompeu seu cárcere e correu no meio da tempestade para o pátio da aldeia e lá começou dançar em circulo e a entoar vários cânticos na tentativa de aplacar aquela ira celeste. Serpente da terra era o mais velho da aldeia. Mas apesar de já ter mais de 65 anos possuía um corpo forte e seu vigor físico era de um homem de quarenta anos. E devido a sua função de médico/feiticeiro muitos na aldeia o temiam, mas acima de tudo todos o respeitavam e acreditavam em suas palavras.
Em resposta aquele distinto ritual um raio rompeu as nuvens e atingiu com toda força o pilar principal da aldeia que explodiu lançando os estilhaços de madeiras em varias direções. O velho pajé assistiu tudo aquilo horrorizado, pois sabia aquele era um sinal de mau agouro. Buscando uma resposta para esse sinal o xamã clamou ao seu totem e aos espíritos protetores da floresta que lhe enviassem uma resposta para todo aquele caos. Imediatamente uma gigantesca serpente sucuri surgiu no meio da mata e saiu deslizando com seu corpo pelo pátio encharcado pela chuva até entrar dentro da oca do velho pajé. Urunhan imediatamente reconheceu seu Totêm e a seguiu até a sua oca. Lá dentro, em meio a pequena fogueira que abrandava o frio causado pela chuva e aos inúmeros vaso e potes contendo as mais variadas ervas, poções e objetos rituais se encontrava não somente o espírito da serpente como também o espírito do macaco e da onça pintada. Juntos os três aguardavam a entrada de Urunhan. E assim que ele passou pela entrada e fechou a porta o macaco por ser o espírito mais velho falou:
-Filho da cobra nos escute com muita atenção!
Urunhan ao perceber a divina presença em seu santuário se pós de joelhos e falou:
-Grandes espíritos que aqui reinam, eu que de tão pequeno nada sei do mundo, que mal e esse que se abate sobre meu povo?
-Um mal a muito aprisionado se libertou de sua prisão. E bem rápido vai estar em seu meio macaco sem pelo. Respondeu o espírito da onça caçadora.
Filho da cobra, o espírito da pantera que estava aprisionando durante longos ciclos pelos seus crimes se libertou hoje causando uma enorme tempestade no plano espiritual e físico e logo ira renascer em seu meio, pois assim prévio o grande espírito. Falou o espírito do Macaco.
- Como Mukura a pantera está agora ligada a essa terra, sua ira acabou atingindo vocês. E com o seu despertar, muita dor e sofrimento se abateram sobre você e seu povo. Pois seu sangue e pêlos ainda estão cobertos de ódio e ganância. Falou a serpente.
-E o que devo fazer então ô grandes espíritos?
O espírito da onça pintada nesse momento lançou um forte grunhido e falou:
-Mukura a pantera, ira renascer junto de uma criança do seu povo. Mas nos que zelamos por está terra decidimos que é cedo para ela estar nesse plano. Ela ainda está muito suja para estar aqui.
-Meu filho essa criança não pode chegar a nascer. E cabe a você não deixar que isso aconteça. Falou com a voz lenta o espírito da cobra.
-Eu compreendo meus bons espíritos, mas como saberei quem é essa que ira trazer tamanha desgraça para meu povo?
- logo saberá quem ela, pois entre as fêmeas de seu povo existe uma de tenra idade e rara beleza que a pouco se tornou mulher. Ela em especial trás desde seu nascimento uma marca em seu braço na forma de uma pata de onça. Respondeu o Macaco.
-Inhaci! Mas... Mas ela ainda é só uma criança! Falou com a voz rouca o velho pajé.
-O destino da fêmea já foi traçado. Para o bem de todos ela deve morrer. Disse o espírito da onça.
-Por hora isso é tudo o que você precisa saber filho da cobra. Quando a tormenta passar, você deve se reunir com o seu povo para lhes passar o que aqui lhes falamos. Pois já devemos partir. Disse o espírito do macaco.
E com um piscar de olhos de Urunhan os três sagrados espíritos protetores da floresta desapareceram deixando o pobre pajé afogado em preocupações.
A tempestade se arrastou pelo restante da noite. Mas na aurora da manhã a forte chuva se transformara em uma garoa fina acompanhada de um fraco nevoeiro.Urunhan que havia passado toda a noite a meditando sobre o que os espíritos lhe disseram, Aproveitou o inicio da manhã para fazer suas preces e pintar seus braços e pernas com tinta de urucum e o rosto com fuligem de carvão. Pois quando as pessoas da aldeia o vissem com aquelas pinturas logo saberiam que uma guerra estava próxima. Pronto fisicamente e espiritualmente ele apanhou seu cajado ornado com os mais variados tipos de penas e saiu de sua oca indo mais uma vez em direção ao pátio da aldeia. Lá chegando com a ponta do cajado desenhou na terra ainda molhada pela chuva um pequeno circulo e bateu com força o cajado no meio do circulo fazendo a terra revolver e formar um pequeno elevado de cinco palmos de altura. Após subir e observar toda a aldeia ele emitiu um forte grito chamando a todos para fora de suas ocas.
Em questão de minutos toda a aldeia estava em sua volta. O cacique, os homens, as mulheres, acompanhadas das crianças, os mais velhos. Todos esperavam atentos e ansiosos pelas palavras do pajé. Com um olhar firme e determinado O pajé começou a narrar o que os sagrados espíritos haviam lhes dito: Com uma voz forte como a de um trovão e por meio de mímicas, Serpente da Terra foi lentamente narrando ponto a ponto a visita dos três sagrados espíritos em sua oca. Explicou-lhes sobre a natureza da tempestade, a profecia feita e finalmente sobre aquela que está destinada a trazer o mal a aldeia.
Imediatamente o mais forte e mais belo dos guerreiros da aldeia de nome Arumãn, e filho do Cacique Acaipôran. Veio até perto de onde estava Serpente da Terra e falou:
-Pajé peço desculpas por lhe interromper, mas por favor nos diga quem é essa que vai trazer tamanho mal para o nosso meio?
Nesse momento o pajé abaixou seus olhos se calou durante alguns segundos e então, falou seriamente:
-Aquela que está destinada a trazer esse mal na barriga carrega em seu braço a marca da pata de uma onça.
Mal o pajé terminou a frase, todas as pessoas da aldeia mudaram seu foco de atenção em direção a Inhanci. Uma jovem garota de corpo pequeno com ar meio infantil, grudada ao braço da avó. Porem está garota possuía uma beleza que chegava a ser quase sobrenatural, ela era tão bela que feria a vaidade das outras mulheres na aldeia. Seu corpo e seios rijos e pele lisa, queimada pelo sol, mau saída da infância levava os homens a deseja-la fortemente. Mas bem antes dela se tornar mulher sua família já havia lhe prometido a Arumãn, o filho do cacique. Como os dois tinham quase a mesma idade, ele com quinze anos e ela com treze anos, acabaram crescendo juntos. Se tornando muito apegados um ao outro.
Instigadas pelo calor da revelação e pela inveja que carregavam, varias mulheres saltaram na direção de Inhanci a atacando com socos, chutes, mordidas e arranhões enquanto outro grupo a impedia de se defender segurando seus braços, puxando seus cabelos e pernas. Sem poder se defender a jovem sofria a forte tortura enquanto os homens e os mais velhos assistiam sem nada fazer para interferir. Até mesmo sua mãe e sua família que assistiam toda aquela barbárie nada fizeram para impedir o ato. Se não fosse a intervenção feroz e ousada de Arumã que saltou entre as mulheres distribuído varias bordoadas até conseguir tomar sua amada nos braços, Inhanci já estaria naquele momento morta. Com o corpo machucado e com vários cortes feitos pelas unhas e dentes das outras mulheres a inocente índia se agarrou com força no corpo de Arumã e deixou as lagrima rolarem pelo seu rosto. Nesse momento Serpente da terra deu grito fazendo toda a multidão ficar em silêncio e desceu do pequeno elevado passando por entre todos até chegar ao casal. Lentamente ele se abaixou e com uma de suas mãos enxugou as lagrimas que saltavam dos olhos de Inhaci, enquanto a outra ia delicadamente afagando seu sedosos cabelos.
-Minha neta, neste dia sombrio um mal recai sobre você. Mas não se abata, tente enxergar que você estará poupando esse mundo e nosso povo da dor do sofrimento.
Mas avozinho eu nem buchuda estou, como eu posso estar destinada a trazer esse mal?
-Minha pequena Seu destino já está selado. Os sagrados espíritos não se enganam jamais. A única forma de impedir este mal... É com o seu fim.
Neste momento Inhaci grudou com mais força ao corpo do seu protetor e gritou explodido em lágrimas.
-Pajé. Talvez tenha algum outro caminho. Falou Arumã.
Mas Serpente da Terra apenas se levantou ignorando as palavras do jovem guerreiro e se voltando para a multidão com um olhar frio e penetrante falou:
-Amanhã assim que a lua estiver no coração da noite teremos um “Baiakuru”.
Estas palavras foram ouvidas com terrível espanto, pois o “baiakuru” é em geral uma punição dada apenas para os piores crimes de uma aldeia. Assassinato, adultério, ou estupro. O ritual era executado da seguinte forma: O criminoso após ser encarcerado durante um dia em uma minúscula oca sem o menor ponto de luz era no fim do dia, alimentado, banhado e ornado com pinturas, penas e os mais variados adornos e colares. Terminada esta primeira etapa o condenado era levado até a entrada da mata por dois homens e solto. Em outro ponto todos os guerreiros da aldeia esperam o sinal dado pelo cacique para então caça-lo até sua morte.
Ninguém ali esperava que o pajé decretasse tal sentença, ainda mais para alguém tão jovem.
Arumã tentou protestar contra a decisão do Pajé, mas sua voz foi abafada pelos gritos de Inhaci. E pelas vozes das mulheres que começaram a entoar juntas um cântico de morte. Imediatamente o cacique Akaiporã retirou o filho dos braços de Inhaci com violência e o fez entrar relutante dentro de sua oca. Tomando a jovem pelos Braços Urunhan a levou sobe o olhar de ódio dos familiares e moradores da aldeia para dentro da oca onde ficava os sentenciados ao “Baiakuru”.

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